Juventude no enfrentamento da mudança do clima: Movimento “Global Climate Strike” acontece hoje em diversos países do mundo!

Hoje, dia 15 de março, está ocorrendo o Global Climate Strike, uma das iniciativas da juventude que está mobilizando o debate sobre o enfrentamento da mudança do clima. Nós, do Laboratório de Educação e Política Ambiental – Oca (ESALQ/USP), manifestamos todo nosso apoio a esse movimento potente e necessário que emerge da juventude de tantas partes do planeta. Acreditamos que os jovens trazem a energia e a força vital necessária a um movimento de transformação e de transição para sociedades sustentáveis.

A humanidade está passando por uma crise nunca antes presenciada em sua história, que irá afetar a vida como nós conhecemos e a todos os seres vivos do planeta. Trata-se da mudança do clima que vem ocorrendo de maneira cada vez mais rápida e intensa e na qual o ser humano tem um papel fundamental. De fato, o impacto antrópico, ou seja, o impacto das ações humanas na Terra, é tamanho que cientistas afirmam que estamos em uma nova era: o Antropoceno.

As Mudanças Climáticas causadas pela ação humana são um fenômeno comprovado pela ciência, ou seja, existem, são emergenciais e irreversíveis para a atual geração. Trata-se de um fenômeno  complexo, multidisciplinar e abrangente e, de uma forma ou de outra, em maior ou menor escala, suas consequências afetarão a todos, em todos os lugares (MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, 2013, p. 11)

Embora seja difícil prever quando e onde os impactos irão ocorrer, devido a multiplicidade de fatores envolvidos, é possível dizer que a  mudança do clima irá intensificar eventos extremos como secas, furacões, enchentes e tempestades, além de elevar os níveis dos oceanos e alterar o regime de chuvas, impactando, assim,  a agricultura, as ocupações urbanas, o uso dos recursos hídricos, a matriz energética, etc., causando incomensuráveis prejuízos econômicos, sociais, culturais, ecológicos e ambientais (KLINK, 2013).

Esse cenário é fruto da organização do sistema global capitalista, pautada na mercantilização e superexploração dos recursos naturais, ao mesmo tempo em que gera intensa desigualdade social. Por isso, concordamos com Irineu Tamaio que diz:

o cenário climático atual exige a adoção de novas escolhas no estilo de vida de nossa sociedade, mudanças de atitudes individuais e coletivas na relação com o meio natural, rupturas paradigmáticas, mudanças de valores no uso e na apropriação dos recursos e fontes energéticas e na experimentação de diferentes alternativas de postura em relação a manutenção da vida na Terra (MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, 2013)

Os movimentos ambientalistas espalhados por todo planeta têm buscado outras propostas mais equilibradas e sustentáveis para nossas sociedades, atuando com os mais diversos atores: educadores, professores, comunidades tradicionais, indígenas, quilombolas, povos sem terra, povos sem casa, refugiados, mulheres, lgbts, jovens, crianças, adultos e velhos. Movimento múltiplo e diverso que se une por uma questão comum e central, que nós resumimos como “É preciso “Mudar o Sistema, Não o Clima!”.

Para isso devemos questionar sobre o que deve ser revisto e como devemos nos reestruturar para viver de modo diferente. É preciso reinventar nossas formas de organização social, nos pautando em modos de vida mais equilibrados para com planeta, com os seres humanos e todos os demais seres vivos com que compartilhamos o tempo presente e futuro na maravilhosa Terra.

Sensíveis a urgência do tema, surge um movimento internacional de jovens que estão em greve em vários países do mundo, alertando que o que está em jogo é também o futuro deles e das próximas gerações no planeta, humanas e não humanas.

Movimento que hoje, nos convida à uma greve geral, fruto da iniciativa de uma jovem de apenas 15 anos que ecoou no coração de milhares de jovens que agora procuram ter voz nesse debate, cobrando ações imediatas e efetivas. Vale lembrar que embora os jovens representam mais de metade da população global, eles não estão incluídos nos processos locais e globais de tomadas de decisão.

No Brasil, como em outros países, a interface entre mudanças climáticas e desigualdades sociais é bastante intensa, sendo necessário olhar com atenção para as populações em situação de vulnerabilidade socioeconômica e ambiental que serão os mais afetados, especialmente as juventudes e as mulheres. Além da justiça ambiental e social, trata-se agora de justiça climática.

Buscando criar e orientar ações, diretrizes e metas, foram criadas a Política Nacional e o Plano Nacional de Mudanças Climáticas (PNMC), além de Planos Setoriais de Mitigação e Adaptação. Outra instância nacional importante é o Observatório do Clima, criado em 2002, por organizações não governamentais socioambientalistas, uma rede brasileira de articulação sobre o tema das mudanças climáticas globais.

Somos signatários do Acordo de Paris, tratado assinado em 2015 por 195 países, que reuniu praticamente todas as nações em torno do compromisso de limitar o aquecimento global, causa das mudanças no clima.

A Contribuição Pretendida Nacionalmente Determinada (iNDC) brasileira, oriunda deste compromisso internacional, prevê uma redução de 37% em 2025 e de 43 % em 2030 em relação aos níveis em 2005. Compõem os elementos centrais dos compromissos brasileiros a redução desmatamento ilegal na Amazônia, a recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas e a restauração de 12 milhões de hectares de vegetação nativa, até 2030, além do fortalecimento e do fomento à agricultura de baixo carbono.

Embora sejam fundamentais para garantir o diálogo e embasar ações, projetos e políticas públicas, os acordos internacionais – que têm sido a principal estratégia de ação – não estão conseguindo avançar a necessária e cada vez mais urgente transformação das sociedades humanas para enfrentar a mudança do clima, garantindo qualidade de vida e bem estar a todos os seres vivos do planeta.

Além disso, o governo de Jair Bolsonaro ameaça seguir os passos de Trump e abandonar o tratado,  ação que faz parte de um desmonte ainda maior da estrutura ambiental do país que demorou décadas para ser construída. Na reestruturação do Ministério do Meio Ambiente, por exemplo, foi extinta a Secretaria de Mudanças do Clima e Florestas, deixando também de existir o Departamento de Políticas em Mudança do Clima e o Departamento de Monitoramento, Apoio e Fomento de Ações em Mudança do Clima.  A Comissão Nacional de Combate à Desertificação e o Comitê Gestor do Fundo Nacional sobre Mudança do Clima foram removidas da pasta sem indicação de onde serão alocadas. Segundo o novo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, a agenda relativa às mudanças climáticas será tocada por uma assessoria especial que ainda será criada.

O Ministério do Meio Ambiente perdeu também atribuições importantes (e que envolvem a iNDC) para outras pastas, como o Serviço Florestal Brasileiro responsável pelo Cadastro Ambiental Rural (CAR) que passou para o Ministério da Agricultura. Ministérios que irá cuidar da demarcação de terras indígenas e quilombolas, competências antes exercidas pela Funai (Fundação Nacional do Índio) e pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). Entre outros retrocessos,destacamos por fim a extinção do Departamento de Educação Ambiental e a passagem para a Secretaria de Ecoturismo da educação ambiental.

Passos que são seguidos por governos do estado, como a gestão de Dória que recentemente passou da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Sima) para a Secretaria da Agricultura e Abastecimento (SAA) grande parte da Coordenadoria de Biodiversidade e Recursos Naturais (CBRN), que entre suas atribuições estava a gestão do Cadastro Ambiental Rural (CAR).

O discurso falacioso do atual governo federal de que o Brasil é sustentável voltou a cena e busca silenciar a intensificação da degradação ambiental no país, seja ela difusa, como o aumento do desmatamento da Amazônia, ou pontual, mas extremamente radical, como os crimes ambientais de Mariana e Brumadinho. Tais crimes causaram o assassinato de centenas de pessoas, mataram dois rios e vários ecossistemas, com impactos que serão sentidos por séculos. Trata-se, portanto, de ecocídio.

O novo relatório do IPCC alerta que para restringir o aquecimento global em até 2ºC, como estabelecido no Acordo Climático de Paris, exigirá mudanças rápidas, abrangentes e sem precedentes em todos os aspectos da sociedade, do consumo de energia ao planejamento urbano e territorial, com muito mais reduções de emissões de gases estufa. A pergunta é: como fazer isso diante de todo esse cenário?

Acreditamos na força da transformação através de processos educadores ambientalistas e da agroecologia na construção de sociedades sustentáveis, além da atuação em políticas públicas ligadas ao meio ambiente, a educação e a ciência e tecnologia. Adotamos como mote de nossa campanha o “Mudar o Sistema, Não o Clima” sabendo que devemos construir juntos, de maneira dialógica e participativa o presente.

Para finalizar, declaramos que nós, educadoras/es ambientalistas, estudantes, pesquisadores, professores e ambientalistas da Oca – Laboratório de Educação e Política Ambiental da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo, manifestamos nosso apoio ao movimento de greve dos jovens contra a mudança do clima que está ocorrendo em diversos países do mundo. Repudiamos as medidas tomadas pelo governo federal e cobramos que a iNCD seja de fato cumprida.

O tempo urge e a hora é agora!

Precisamos agir pela construção de sociedades sustentáveis, justas e felizes!

Pela mudança do sistema e não do clima!

 

#MudeoSistemaNaooClima

#transiçãoparasociedadessustentaveis

#euatuonatransicao

#mulheresnaea

 

Saiba mais:

https://www.facebook.com/StrikeClimate/

https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/luiz-marques/greve-global-dos-adolescentes-pelo-clima

https://epocanegocios.globo.com/Brasil/noticia/2019/01/bolsonaro-mantem-ministerio-do-meio-ambiente-mas-esvazia-pasta.html

http://www.diretodaciencia.com/2019/03/12/funcionarios-protestam-contra-politica-ambiental-de-doria/

http://oquevocefariasesoubesse.blogspot.com/

Referências:

KLINK, C. A. Mudança do Clima e a Educação Ambiental. 2013. In: Ministério do Meio Ambiente. Secretaria de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental. Departamento de Educação Ambiental. EDUCAÇÃO AMBIENTAL & MUDANÇAS CLIMÁTICAS  DIÁLOGO NECESSÁRIO NUM MUNDO EM TRANSIÇÃO. Série EducAtiva Parâmetros e diretrizes para a Política Nacional de Educação Ambiental no contexto das Mudanças Climáticas causadas pela ação humana. Texto: Irineu Tamaio. Brasília/DF, junho de 2013.

MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Secretaria de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental. Departamento de Educação Ambiental. EDUCAÇÃO AMBIENTAL & MUDANÇAS CLIMÁTICAS  DIÁLOGO NECESSÁRIO NUM MUNDO EM TRANSIÇÃO. Série EducAtiva Parâmetros e diretrizes para a Política Nacional de Educação Ambiental no contexto das Mudanças Climáticas causadas pela ação humana. Texto: Irineu Tamaio. Brasília/DF, junho de 2013.

TAMAIO, I. POLÍTICAS PÚBLICAS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM TEMPOS DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS: UM DIÁLOGO NECESSÁRIO EM UM MUNDO DE (IN)CERTEZAS. VI Encontro “Pesquisa em Educação Ambiental”. A Pesquisa em Educação Ambiental e a Pós-Graduação no Brasil Ribeirão Preto, setembro de 2011.

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